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A Solidão do Despertar

Foto do escritor: monica-twka
monica-twka
24 de ago.
6 min de leitura

Quando começamos a mudar por dentro, nem sempre as pessoas à nossa volta conseguem acompanhar a nossa transformação.

Existe uma solidão que não acontece porque estamos sozinhos.

Podemos estar rodeados de pessoas, conversar, trabalhar, cuidar da família, participar em grupos e, ainda assim, sentir que existe dentro de nós um lugar que ninguém parece compreender.

É uma solidão diferente.

É a sensação de não conseguir traduzir aquilo que estamos a viver interiormente.

Talvez seja isso que algumas pessoas sentem durante um processo de despertar espiritual.

Não necessariamente porque se tornaram “diferentes” das outras pessoas, mas porque começaram a fazer perguntas que antes não faziam.

Quem sou eu?

O que realmente quero para a minha vida?

Porque estou aqui?

O que existe para além daquilo que consigo perceber?

E quando começamos a procurar respostas, alguma coisa muda.


🌱 Quando deixamos de caber na nossa antiga vida

O despertar pode começar de forma subtil.

Um livro desperta uma pergunta.

Uma experiência transforma uma crença.

Uma perda muda as prioridades.

Uma prática espiritual abre uma nova perspectiva.

Uma relação termina.

Uma crise obriga-nos a olhar para dentro.

E, pouco a pouco, percebemos que já não somos exatamente a mesma pessoa.

Mas existe um problema:

as pessoas à nossa volta continuam a conhecer a nossa versão anterior.

Elas conhecem os nossos hábitos.

As nossas opiniões.

As nossas reações.

A pessoa que sempre fomos.

E, quando começamos a mudar, pode surgir um desencontro.

Não porque alguém esteja necessariamente errado.

Mas porque estamos em momentos diferentes da nossa jornada.


“Ninguém me entende”

Talvez esta seja uma das frases mais comuns durante períodos de profunda transformação:

“Ninguém me entende.”

Queremos falar sobre aquilo que sentimos.

Sobre sonhos.

Sincronicidades.

Intuição.

Experiências energéticas.

Questionamentos existenciais.

Espiritualidade.

Consciência.

Propósito.

Mas nem sempre encontramos espaço para conversar sobre esses assuntos.

E então podemos começar a guardar tudo dentro de nós.

É nesse momento que a solidão pode crescer.

Mas existe uma distinção importante:

sentir-se incompreendido não significa necessariamente estar sozinho.

Às vezes, significa apenas que ainda não encontramos as pessoas com quem podemos partilhar aquela parte específica da nossa experiência.


O despertar também pode afastar-nos de algumas relações

Quando mudamos internamente, os nossos limites podem mudar.

Aquilo que tolerávamos deixa de ser aceitável.

Determinadas conversas já não nos interessam.

Alguns ambientes tornam-se desconfortáveis.

Começamos a perceber padrões que antes não percebíamos.

E algumas relações podem naturalmente transformar-se.

Isso pode ser doloroso.

Principalmente quando percebemos que determinadas relações estavam sustentadas por uma versão nossa que já não existe.

Pode surgir então uma pergunta difícil:

“Estou a perder pessoas porque estou a mudar?”

Nem sempre.

Às vezes estamos apenas a aprender a relacionar-nos de uma maneira diferente.

Algumas pessoas acompanham.

Outras afastam-se.

Algumas permanecem, mas a relação transforma-se.

E algumas simplesmente pertencem a uma determinada fase da nossa vida.


O perigo de romantizar a solidão

Existe, porém, um cuidado importante.

A solidão do despertar não deve transformar-se numa crença de superioridade.

Pensamentos como:

“Eu despertei e os outros ainda estão adormecidos.”

“Eu vejo coisas que eles não conseguem compreender.”

“As pessoas comuns não conseguem acompanhar a minha frequência.”

podem criar um isolamento ainda maior.

Espiritualidade não deveria transformar-se numa hierarquia entre pessoas.

Cada ser humano encontra-se numa experiência diferente.

Cada pessoa possui o seu próprio ritmo de aprendizagem, questionamento e transformação.

Talvez despertar não seja afastarmo-nos dos outros.

Talvez seja aprender a estar com os outros sem deixar de ser quem somos.


A solidão pode revelar uma relação com nós mesmos

Existe outra dimensão ainda mais profunda.

Às vezes sentimos falta dos outros porque ainda não aprendemos a estar connosco.

Quando o ruído exterior diminui, encontramos pensamentos, emoções e perguntas que estavam escondidos.

E isso pode ser desconfortável.

Por isso, algumas pessoas procuram constantemente companhia, informação, redes sociais, trabalho ou estímulos.

Não necessariamente porque gostam de estar acompanhadas.

Mas porque têm medo do silêncio.

O despertar pode convidar-nos para esse silêncio.

Não como punição.

Mas como espaço de encontro.

Quem sou eu quando ninguém está a olhar?


A noite também faz parte do caminho

Há momentos na jornada em que parece que perdemos as referências antigas.

As respostas já não servem.

Mas as novas ainda não chegaram.

É um espaço de transição.

Na espiritualidade, algumas pessoas associam esse período à chamada Noite Escura da Alma.

É uma expressão utilizada em diferentes contextos espirituais para descrever períodos de profunda crise interior, vazio, desapego e transformação.

Mas nem toda tristeza ou sofrimento deve ser interpretado como uma experiência espiritual.

Existem momentos em que precisamos simplesmente de apoio, descanso, cuidado emocional e, quando necessário, acompanhamento profissional.

O despertar não nos torna imunes à condição humana.

Continuamos a precisar de pessoas.

De cuidado.

De vínculos.

De segurança.

De apoio.


Encontrar a nossa tribo

Existe uma fase importante depois da solidão:

o encontro.

À medida que nos conhecemos melhor, começamos a encontrar pessoas com quem podemos conversar sem precisar explicar tudo.

Pessoas que respeitam as nossas perguntas.

Que não precisam acreditar exatamente nas mesmas coisas.

Que conseguem ouvir sem ridicularizar.

Que também questionam.

Que também procuram.

Que também estão a aprender.

Essa comunidade pode surgir num curso, num grupo de estudos, numa prática espiritual, numa amizade ou simplesmente através de uma conversa inesperada.

E percebemos algo importante:

não precisamos que todos nos compreendam.

Precisamos de algumas relações onde possamos ser verdadeiros.


Continuar ligado à Terra

Quanto mais exploramos a dimensão espiritual da existência, mais importante se torna manter os pés no chão.

Continuar a trabalhar.

Cuidar da casa.

Pagar as contas.

Cuidar do corpo.

Rir.

Conviver.

Passear.

Estar na natureza.

Fazer coisas simples.

Porque o despertar não é abandonar a vida.

É viver a vida com mais presença.

A espiritualidade que não consegue encontrar espaço no cotidiano corre o risco de permanecer apenas como uma ideia.

O verdadeiro trabalho acontece quando aquilo que descobrimos interiormente começa a transformar a maneira como tratamos a nós mesmos e aos outros.


Não precisa caminhar sozinho

Se estás a atravessar um período de transformação e sentes que ninguém compreende completamente aquilo que estás a viver, lembra-te:

não precisas encontrar imediatamente todas as respostas.

Podes caminhar devagar.

Podes questionar.

Podes mudar de opinião.

Podes procurar ajuda.

Podes conversar.

Podes manter algumas crenças e abandonar outras.

Podes explorar a espiritualidade sem perder o discernimento.

E podes continuar a amar pessoas que não compreendem a tua jornada.

Cada pessoa possui o seu próprio caminho.


Talvez a solidão seja uma passagem, não um destino

A solidão do despertar pode ensinar-nos algo precioso:

a capacidade de permanecer connosco mesmos.

Mas permanecer connosco não significa fechar-nos ao mundo.

Significa deixar de depender completamente da validação exterior para saber quem somos.

Quando aprendemos isso, algo muda.

Já não precisamos convencer.

Já não precisamos provar.

Já não precisamos que todos compreendam.

Podemos simplesmente caminhar.

E, enquanto caminhamos, encontramos outros viajantes.

Alguns ficam pouco tempo.

Outros permanecem durante anos.

Alguns tornam-se amigos.

Alguns tornam-se mestres.

Alguns tornam-se espelhos.

E outros ensinam-nos, através da sua partida, a continuar.


A pergunta que fica

Talvez o despertar não esteja a perguntar:

“Porque ninguém me entende?”

Talvez esteja a perguntar:

“Consigo compreender-me a mim mesmo?”

Porque quando começamos verdadeiramente a escutar quem somos, a solidão deixa de ser apenas ausência.

Pode transformar-se em espaço.

Espaço para ouvir.

Espaço para sentir.

Espaço para questionar.

Espaço para crescer.

E, finalmente, espaço para escolher conscientemente quem queremos levar connosco para a próxima etapa da jornada.

Nem toda solidão é abandono.Algumas solidões são espaços de reencontro.

Talvez estejas simplesmente entre duas versões de ti:

a pessoa que já não és

e

a pessoa que ainda estás a aprender a ser.

E entre uma e outra existe um território silencioso.

Não tenhas medo dele.

É ali que muitas transformações começam.

🌌 Reflexão Luz D’Alma

Hoje, pergunta a ti mesmo:

Que parte de mim está a mudar?

Que relações continuam alinhadas com quem estou a tornar-me?

Onde tenho medo de ser verdadeiramente eu?

Consigo estar comigo sem sentir que estou sozinho?

E, sobretudo:

Que tipo de pessoas quero encontrar nesta nova fase da minha vida?

Porque talvez o objetivo do despertar não seja ficar sozinho.

Talvez seja aprender a não nos abandonarmos enquanto encontramos o nosso lugar no mundo.


Monica Morris

Terapeuta Energética | Fundadora da Clínica Luz D’Alma

Entre a solidão e o encontro existe um caminho. E esse caminho começa dentro de nós.


 
 
 

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